Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
Depois que eu morrer
vou andar pelas margens de um rio,
vagarosíssimo, quase lago,
esverdeado do mato em volta,
enormes árvores,
com trepadeiras torcidas,
que pendem até o chão.
Vou sentar ali,
meio frio,
uma névoa presa em tudo,
e adivinhar gotas,
movimento imperceptível,
que pulam das folhas,
fim da noite,
orvalho da madrugada,
um círculo no círculo maior
e outro maior e outro...
Olhar agudamente,
que uma morta não tem pressa.
Ver uma folha seca,
que navega,
tranquilamente, nesse rio,
vagarosíssimo.
Se desejar, descer o rio
sentada na folha,
que uma morta não tem peso.
E ver outros lagos,
que a correnteza encontra.
Pouca luz do sol,
teimosia do céu,
que as árvores,
imensas e abraçadas,
filtram, mesquinhamente:
uma cortina, tênue e esgarçada,
quer macular o rio,
acompanhada de uma flauta de anjo,
se anjo e flauta houver.
Mas, no verde e na paz,
só silêncio,
que uma morta não precisa de som.
domingo, 23 de outubro de 2011
domingo, 9 de outubro de 2011
Orfandade
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
Urgência:
busco uma utopia.
Quem me empresta uma utopia?
Um colo de esperança,
um ninho de certeza,
aposta no futuro.
No céu, entre as nuvens,
não paira uma utopia.
No altar, não há uma utopia,
quero acender minha vela.
À noite, de joelhos,
faço uma prece vazia,
pois não há mais utopia.
Urgência:
busco uma utopia.
Quem me empresta uma utopia?
Um colo de esperança,
um ninho de certeza,
aposta no futuro.
No céu, entre as nuvens,
não paira uma utopia.
No altar, não há uma utopia,
quero acender minha vela.
À noite, de joelhos,
faço uma prece vazia,
pois não há mais utopia.
domingo, 18 de setembro de 2011
Estática
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
Dedico este poema a Rafael Nolli (link do blogue)
O medo não vem da mão levantada,
bofetada em punho.
O medo não vem dos olhos raivosos,
que partem o corpo ao meio,
raio coriscante.
O medo não vem dos dentes rilhados,
que encostam os cães contra a parede.
O medo não vem da sombra negra,
silhueta de punhal à mão.
O medo vem das mãos cruzadas,
dos olhos baixos,
do silêncio covarde, envergonhado.
Dedico este poema a Rafael Nolli (link do blogue)
O medo não vem da mão levantada,
bofetada em punho.
O medo não vem dos olhos raivosos,
que partem o corpo ao meio,
raio coriscante.
O medo não vem dos dentes rilhados,
que encostam os cães contra a parede.
O medo não vem da sombra negra,
silhueta de punhal à mão.
O medo vem das mãos cruzadas,
dos olhos baixos,
do silêncio covarde, envergonhado.
domingo, 4 de setembro de 2011
Flashback
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
Magra menina,
aquela.
Magra vida,
mancha de sonho,
aquarela.
Olho triste,
feia menina
revela.
Um azul todo borrado,
sonho de menina,
tela.
Tanto medo,
hoje rima,
ela.
Aguardo sua visita em Literatura em vida 2 (link) e Conto-gotas (link).
Magra menina,
aquela.
Magra vida,
mancha de sonho,
aquarela.
Olho triste,
feia menina
revela.
Um azul todo borrado,
sonho de menina,
tela.
Tanto medo,
hoje rima,
ela.
Aguardo sua visita em Literatura em vida 2 (link) e Conto-gotas (link).
sábado, 20 de agosto de 2011
Tradutor
Eliane F.C.Lima (registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
Há uma carta.
Não diz nada,
coleção de palavras.
Quem lia
era meu coração,
escritor, poeta, iludido.
Ele lia “amor”,
onde havia “panela”,
“paixão”, onde “sapato”,
“eterno”, onde “saída".
Aguardo sua presença em meu outro blogue Conto-gotas (link) e Literatura em vida 2 (link).
Há uma carta.
Não diz nada,
coleção de palavras.
Quem lia
era meu coração,
escritor, poeta, iludido.
Ele lia “amor”,
onde havia “panela”,
“paixão”, onde “sapato”,
“eterno”, onde “saída".
Aguardo sua presença em meu outro blogue Conto-gotas (link) e Literatura em vida 2 (link).
domingo, 31 de julho de 2011
Passado a limpo
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Felina
Eliane F.C.Lima (registrado no Escritório de Direitos Autorais)
Tal qual os gatos, no frio,
sento-me ao sol.
O quente vem chegando,
manda o frio embora,
manda a ânsia embora,
embora a hesitação.
O quente traz as certezas,
a paz amornando a pele.
A sapiência é um gato.
(Visite, ainda, os blogues Literatura em vida 2 (link) e Conto-gotas (link) .)
Tal qual os gatos, no frio,
sento-me ao sol.
O quente vem chegando,
manda o frio embora,
manda a ânsia embora,
embora a hesitação.
O quente traz as certezas,
a paz amornando a pele.
A sapiência é um gato.
(Visite, ainda, os blogues Literatura em vida 2 (link) e Conto-gotas (link) .)
domingo, 19 de junho de 2011
Hosana
Homenagem a José Saramago (1922-2010)
Eliane F.C.Lima (Registrado no EDA - RJ)
Hosana
Sentado estava Deus, e absorto
– que Deus também tem dúvida e anseio.
E chega-lhe, de manso, em pleno horto,
um magro homem e senta ali no meio.
De imediato o deus o reconhece,
é Saramago, dele não se esquece.
O homem, mesmo vendo, não acredita
e se exaltar, à toa, ainda evita.
Mas o outro – a espera não foi vã –,
mesmo Deus, o coração aos pulos,
sorri de si, e mais dos homens fulos
que, no lodo, cospem ira anã.
Mostra as guirlandas postas pelos cestos,
a festa preparada ao José,
declama, decorados, os seus textos,
demonstra com clareza sua fé.
Diz-lhe que agradece a cada dia
a negação daquele deus cruento,
do que foi só malévolo invento,
daquilo que – por Deus! – não existia.
Negando as hipócritas mentiras,
o uso da falácia e do poder,
falsa verdade que sempre o traíra,
Saramago o estava a defender.
Manso poeta, o abraço às costas,
vê ao redor de si um outro homem,
e, sem se importar por quem o tomem,
envolve-lhe, cálido, as mãos postas.
(03-07-2010)
Aguardo sua visita em Literatura em vida 2 e Conto-gotas.
Eliane F.C.Lima (Registrado no EDA - RJ)
Hosana
Sentado estava Deus, e absorto
– que Deus também tem dúvida e anseio.
E chega-lhe, de manso, em pleno horto,
um magro homem e senta ali no meio.
De imediato o deus o reconhece,
é Saramago, dele não se esquece.
O homem, mesmo vendo, não acredita
e se exaltar, à toa, ainda evita.
Mas o outro – a espera não foi vã –,
mesmo Deus, o coração aos pulos,
sorri de si, e mais dos homens fulos
que, no lodo, cospem ira anã.
Mostra as guirlandas postas pelos cestos,
a festa preparada ao José,
declama, decorados, os seus textos,
demonstra com clareza sua fé.
Diz-lhe que agradece a cada dia
a negação daquele deus cruento,
do que foi só malévolo invento,
daquilo que – por Deus! – não existia.
Negando as hipócritas mentiras,
o uso da falácia e do poder,
falsa verdade que sempre o traíra,
Saramago o estava a defender.
Manso poeta, o abraço às costas,
vê ao redor de si um outro homem,
e, sem se importar por quem o tomem,
envolve-lhe, cálido, as mãos postas.
(03-07-2010)
Aguardo sua visita em Literatura em vida 2 e Conto-gotas.
domingo, 5 de junho de 2011
Paz gustativa
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
À tarde, leite fervente com canela,
bolo de milho ainda morno.
E o mundo é bom,
as pessoas, fraternas e generosas,
a felicidade, eterna.
(Aguardo você em Literatura em vida 2 e Conto-gotas.)
(Continuo remetendo para o Longitudes, de Nydia Bonetti, poeta que postei em Literatura em vida 2. É maravilhar-se.)
À tarde, leite fervente com canela,
bolo de milho ainda morno.
E o mundo é bom,
as pessoas, fraternas e generosas,
a felicidade, eterna.
(Aguardo você em Literatura em vida 2 e Conto-gotas.)
(Continuo remetendo para o Longitudes, de Nydia Bonetti, poeta que postei em Literatura em vida 2. É maravilhar-se.)
domingo, 22 de maio de 2011
Poesia
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
Móveis antigos não falam.
Quem fala sou eu,
ouvindo-lhes a voz secreta,
um murmúrio contínuo,
de muitos, do passado.
Lembram de tudo
e não contam.
Conto eu,
minha voz secreta,
meu murmúrio contínuo,
do presente.
Móveis antigos não falam.
Quem fala sou eu,
ouvindo-lhes a voz secreta,
um murmúrio contínuo,
de muitos, do passado.
Lembram de tudo
e não contam.
Conto eu,
minha voz secreta,
meu murmúrio contínuo,
do presente.
domingo, 8 de maio de 2011
O seio
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
Poema dedicado à minha mãe, um pouco antes de sua morte.
Hoje preciso de mãe mais do que nunca,
me enrolar em seus braços e tremer de medo.
Porque tenho medo mais do que nunca,
eu que nunca temi coisa nenhuma.
A maior solidão é a de não ter colo de mãe,
refúgio inexpugnável.
Naquele rosto frágil e delirante reconheço tudo:
a demência, o pavor, o escuro da insensatez.
De quem é esse rosto, minha mãe?
Não o seu, não o seu.
Onde o refúgio, onde o colo,
onde o seu olhar nesses olhos enlouquecidos,
nessa face envelhecida e tristonha,
nessa respiração arquejante,
nessas palavras vacilantes e sem nexo?
Onde a mãe?
Mãe é forte, é consolo, é abrigo.
Hoje sou eu que preciso ser forte
e onde a força?
Hoje sou eu que devo proteger
e onde o colo,
eu que choro fraca e amedrontada, recém-nascida sem alívio [de seio?
Ser sua mãe?
Em mim só cabe a pequenez de filha.
Poema dedicado à minha mãe, um pouco antes de sua morte.
Hoje preciso de mãe mais do que nunca,
me enrolar em seus braços e tremer de medo.
Porque tenho medo mais do que nunca,
eu que nunca temi coisa nenhuma.
A maior solidão é a de não ter colo de mãe,
refúgio inexpugnável.
Naquele rosto frágil e delirante reconheço tudo:
a demência, o pavor, o escuro da insensatez.
De quem é esse rosto, minha mãe?
Não o seu, não o seu.
Onde o refúgio, onde o colo,
onde o seu olhar nesses olhos enlouquecidos,
nessa face envelhecida e tristonha,
nessa respiração arquejante,
nessas palavras vacilantes e sem nexo?
Onde a mãe?
Mãe é forte, é consolo, é abrigo.
Hoje sou eu que preciso ser forte
e onde a força?
Hoje sou eu que devo proteger
e onde o colo,
eu que choro fraca e amedrontada, recém-nascida sem alívio [de seio?
Ser sua mãe?
Em mim só cabe a pequenez de filha.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Monólogo II
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
A solidão envolve o ser humano
e o ser se vê preso pela corrente do sozinho.
A multidão congela o ser em uma ilha.
Barcos vão e vêm.
Mas uma ilha olha outra ilha, de longe e só.
A solidão é uma galáxia de estrelas.
E estrelas piscam suas luzes individuais.
Mandam mensagens, querem conversa,
mas ninguém responde...
E uma estrela olha outra estrela, de longe... e só.
A solidão envolve o ser humano
e o ser se vê preso pela corrente do sozinho.
A multidão congela o ser em uma ilha.
Barcos vão e vêm.
Mas uma ilha olha outra ilha, de longe e só.
A solidão é uma galáxia de estrelas.
E estrelas piscam suas luzes individuais.
Mandam mensagens, querem conversa,
mas ninguém responde...
E uma estrela olha outra estrela, de longe... e só.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
AVISO
Devido à preparação de mudança para o Rio de Janeiro - de volta a meu paraíso! -, durante, pelo menos, este mês, não haverá postagens novas. Agradeço a quem quiser visitar os poemas já editados. Mas, abaixo, uma quadrinha fevereira.
O retorno
Nascida em fevereiro,
sou peixe de água doce.
Ainda não o fosse,
sou o Rio de Janeiro.
(06-02-2011)
sábado, 29 de janeiro de 2011
Família
Eliane F.C.Lima (Registrado no Escritório de Direitos Autorais)
Mesa de pés de ferro,
o tempo, já azinhavre,
o tampo, vidro pesado,
os anos, já mais de cem.
Veio de avós de avós,
juntando história e matéria.
Pura ilusão, penso eu:
lembranças, sonhos, feitiços,
tudo volátil e enganoso,
tudo morto e enterrado.
Calam-se a mesa, seus pés
e o transparente tampo.
A matéria, sobrevida,
mas a história já mudou,
lembranças, sonhos, feitiços,
tudo, há muito, se calou.
Sobre o vidro, meu papel,
minha caneta e memória.
Minha poesia vive,
tal qual estes pés de ferro,
minhas avós desenterro,
comigo, um século vem.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - EDA - RJ)
Convido o visitante deste blogue a ir a Conto-gotas (por aqui), onde há um novo conto meu e a Literatura em vida 2 (o caminho é esse).
Mesa de pés de ferro,
o tempo, já azinhavre,
o tampo, vidro pesado,
os anos, já mais de cem.
Veio de avós de avós,
juntando história e matéria.
Pura ilusão, penso eu:
lembranças, sonhos, feitiços,
tudo volátil e enganoso,
tudo morto e enterrado.
Calam-se a mesa, seus pés
e o transparente tampo.
A matéria, sobrevida,
mas a história já mudou,
lembranças, sonhos, feitiços,
tudo, há muito, se calou.
Sobre o vidro, meu papel,
minha caneta e memória.
Minha poesia vive,
tal qual estes pés de ferro,
minhas avós desenterro,
comigo, um século vem.
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domingo, 16 de janeiro de 2011
Fim de caso
Eliane F.C.Lima
Eu andava cheirando o chão onde passavas,
como os cachorros.
Como mudou assim?
Junto as coisas que deixaste,
na fuga,
e faço xixi em cima.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
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Estou ainda em:
1. Debates Culturais, onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima (link).
2. Recanto das Letras (aqui).
3. Portal Literal (aqui).
4. Alma de Poeta (aqui).
Eu andava cheirando o chão onde passavas,
como os cachorros.
Como mudou assim?
Junto as coisas que deixaste,
na fuga,
e faço xixi em cima.
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4. Alma de Poeta (aqui).
domingo, 2 de janeiro de 2011
Desejo de Ano Novo
Eliane F.C.Lima
Não sei o que se passa, de repente,
que ando procurando alguém ausente,
que ando procurando um sentimento,
pisando com esse passo vago e lento.
Um dia havia amor, isso havia,
sorri diversas vezes, algum dia.
A taça borbulhante em meu peito,
era esperança, fosse de que jeito.
Hei de encontrar atrás de alguma porta,
a esperança ainda não está morta,
ouço-lhe, ainda, forte a chamada.
Há uma senha, chave encantada:
quero abrir, com força, a porta certa,
hei de mantê-la, para sempre, aberta.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
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Não sei o que se passa, de repente,
que ando procurando alguém ausente,
que ando procurando um sentimento,
pisando com esse passo vago e lento.
Um dia havia amor, isso havia,
sorri diversas vezes, algum dia.
A taça borbulhante em meu peito,
era esperança, fosse de que jeito.
Hei de encontrar atrás de alguma porta,
a esperança ainda não está morta,
ouço-lhe, ainda, forte a chamada.
Há uma senha, chave encantada:
quero abrir, com força, a porta certa,
hei de mantê-la, para sempre, aberta.
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domingo, 19 de dezembro de 2010
Iguaria
Eliane F.C.Lima
Hoje,
em minha mesa,
serve-se a saudade...
Cercada de bons vinhos,
um manjar branco e antigo,
suas arcaicas ameixas,
à sobremesa.
Em meu prato de porcelana,
herdado e fino,
degusto o passado,
um copo de lágrimas, de permeio.
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Hoje,
em minha mesa,
serve-se a saudade...
Cercada de bons vinhos,
um manjar branco e antigo,
suas arcaicas ameixas,
à sobremesa.
Em meu prato de porcelana,
herdado e fino,
degusto o passado,
um copo de lágrimas, de permeio.
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domingo, 5 de dezembro de 2010
Ciclo
Eliane F.C.Lima
Desde as cavernas,
as águas rolam
e os raios, estilhaços no céu.
Aquele ser, aberta a boca e os olhos,
treme de medo,
desde as cavernas.
Senhor dos animais,
das plantas, rios e lagos.
Dos raios explodidos,
das águas inundadas,
terremotos e furacões,
dos prédios desabados,
tremerá de medo,
oculto de novo,
em suas cavernas.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
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3. Portal Literal (aqui).
Desde as cavernas,
as águas rolam
e os raios, estilhaços no céu.
Aquele ser, aberta a boca e os olhos,
treme de medo,
desde as cavernas.
Senhor dos animais,
das plantas, rios e lagos.
Dos raios explodidos,
das águas inundadas,
terremotos e furacões,
dos prédios desabados,
tremerá de medo,
oculto de novo,
em suas cavernas.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais - RJ)
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domingo, 28 de novembro de 2010
Intriga
Eliane F.C.Lima
Mangueiras. Comadres:
boatos secretos,
suas folhas pontudas,
murmurinhas ao vento.
Sussurram de mim
suas vozes de chuva?
Disfarces, olhares oblíquos,
malícias, maldades?
As mangueiras, comadas,
seu verde, verdugo,
vergasta a verdade:
um grande segredo
rumoram ao vento.
Mangueiras. Comadres:
boatos secretos,
suas folhas pontudas,
murmurinhas ao vento.
Sussurram de mim
suas vozes de chuva?
Disfarces, olhares oblíquos,
malícias, maldades?
As mangueiras, comadas,
seu verde, verdugo,
vergasta a verdade:
um grande segredo
rumoram ao vento.
(Registrado no Escritório de Direitos Autorais,
como todos os textos)
como todos os textos)
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domingo, 21 de novembro de 2010
Mudança II
Eliane F.C.Lima
Casa nova: limite afrouxado
para não caber meus sustos,
angústias, desilusões.
Meu corpo dilatado:
sala enorme, corredor sem fim,
varandas e quartos.
Para caber a minha alma,
vaga, que vaga,
novo espaço alargado,
casa nova, corpo antigo,
corpo antigo, casa nova,
buscando a feliz esperança,
que aqui está.
Casa nova: limite afrouxado
para não caber meus sustos,
angústias, desilusões.
Meu corpo dilatado:
sala enorme, corredor sem fim,
varandas e quartos.
Para caber a minha alma,
vaga, que vaga,
novo espaço alargado,
casa nova, corpo antigo,
corpo antigo, casa nova,
buscando a feliz esperança,
que aqui está.
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domingo, 14 de novembro de 2010
Mudança
Eliane F.C.Lima
Nova casa, nova alma,
seu ninho entre paredes.
Novos sonhos,
guardados nesses quadrados.
Nas janelas, em seus quadros,
os sonhos entram ou voam.
Minha casa, corpo ampliado
e a alma alargada nos quartos.
Nova casa, nova alma,
seu ninho entre paredes.
Novos sonhos,
guardados nesses quadrados.
Nas janelas, em seus quadros,
os sonhos entram ou voam.
Minha casa, corpo ampliado
e a alma alargada nos quartos.
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sábado, 6 de novembro de 2010
Diamante
Eliane F.C.Lima
A vida é o ourives.
Sou polida a cada dia.
Reverso de diamante,
vou perdendo o brilho.
Ontem fiquei mais fosca que antes,
hoje sou menor que ontem.
Cada vez valho menos.
A vida é o ourives.
Sou polida a cada dia.
Reverso de diamante,
vou perdendo o brilho.
Ontem fiquei mais fosca que antes,
hoje sou menor que ontem.
Cada vez valho menos.
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domingo, 24 de outubro de 2010
Afinal
Eliane F.C.Lima
O meu dragão, onde está?
Procuro pelas esquinas.
Onde foi que se perdeu?
Tem as garras afiadas,
a bocarra imunda e quente,
seus olhos verdes vidrados,
o ódio acaba na cauda.
Tudo junto, onde irá?
Apuro ouvidos e olhos,
apuro, fino, meu faro,
a minha pele esfriada,
procurando labaredas.
Aguardo seus urros loucos,
incêndios e destroçar.
Belo corpo, meio cobra,
asas negadas de anjos,
se pode, vai para o céu,
se não, rasteja no chão.
Sabe de si, sabe tudo,
esse meu dragão querido.
Hei de achá-lo, de surpresa,
hei de dar-me, sua presa.
O meu dragão, onde está?
Procuro pelas esquinas.
Onde foi que se perdeu?
Tem as garras afiadas,
a bocarra imunda e quente,
seus olhos verdes vidrados,
o ódio acaba na cauda.
Tudo junto, onde irá?
Apuro ouvidos e olhos,
apuro, fino, meu faro,
a minha pele esfriada,
procurando labaredas.
Aguardo seus urros loucos,
incêndios e destroçar.
Belo corpo, meio cobra,
asas negadas de anjos,
se pode, vai para o céu,
se não, rasteja no chão.
Sabe de si, sabe tudo,
esse meu dragão querido.
Hei de achá-lo, de surpresa,
hei de dar-me, sua presa.
Convido o visitante deste blogue a ir a Conto-gotas (por aqui), onde há um novo conto meu e a Literatura em vida 2 (o caminho é esse), no qual posto o ensaio "Essa gente raivosa." Estou ainda em Debates Culturais (link), onde passo, agora a publicar alguns artigos, bastando um clique, na lista "Colunistas", à direita, em Eliane Lima. Recomendo ainda, nesse mesmo endereço, a excelente Cintia Barreto, além de todos os outros.
Marcadores:
Debates Culturais - Eliane Lima - Cintia Barreto
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O Haiti dentro de mim
Eliane F.C.Lima
Tive um sonho mau:
de destroços, de choro, de fome.
Eram pés deambulantes,
bocas rotas,
olhos em busca de vida.
O mundo era ali, tragado, –
resto de mundo – e ruínas.
O caos. Aí, a vida errante,
erra, vagarosamente,
com pernas bambas,
passos inseguros.
A vida buscando
sob minhas lajes,
no meio do pó desabado,
por entre vigas caídas,
um restinho de humano.
Tive um sonho mau:
de destroços, de choro, de fome.
Eram pés deambulantes,
bocas rotas,
olhos em busca de vida.
O mundo era ali, tragado, –
resto de mundo – e ruínas.
O caos. Aí, a vida errante,
erra, vagarosamente,
com pernas bambas,
passos inseguros.
A vida buscando
sob minhas lajes,
no meio do pó desabado,
por entre vigas caídas,
um restinho de humano.
domingo, 10 de outubro de 2010
O vento e o tempo
Eliane F.C.Lima
Diz Cecília que o vento,
o vento empurra o tempo,
mexe as folhas, leva areia,
revolve a alma e a vontade.
Cecília diz que o tempo,
o tempo empurra a vida,
corta a sorte, faz ferida,
apaga a felicidade.
Diz Cecília que o vento,
o vento empurra o tempo,
mexe as folhas, leva areia,
revolve a alma e a vontade.
Cecília diz que o tempo,
o tempo empurra a vida,
corta a sorte, faz ferida,
apaga a felicidade.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Retrato
Eliane F.C.Lima
Era a vida,
seu movimento:
a juventude, o sonho, a festa.
Caleidoscopio colorido,
tudo mudança.
E veio a foto,
caras muitas, sorrisos sentados,
braços e ombros, entrelaços,
alegria presa do papel.
A vida, fugaz, foi.
Velhice,
mortos quatro,
um olha a foto:
de quem são os sorrisos,
de quem a juventude,
onde a festa,
que é do sonho?
A alegria, fugaz, fugiu.
Era a vida,
seu movimento:
a juventude, o sonho, a festa.
Caleidoscopio colorido,
tudo mudança.
E veio a foto,
caras muitas, sorrisos sentados,
braços e ombros, entrelaços,
alegria presa do papel.
A vida, fugaz, foi.
Velhice,
mortos quatro,
um olha a foto:
de quem são os sorrisos,
de quem a juventude,
onde a festa,
que é do sonho?
A alegria, fugaz, fugiu.
domingo, 26 de setembro de 2010
Mágica estrada
Eliane F.C.Lima
Nasci e a vida já indo:
um roteiro pela frente,
enorme estrada de luz.
Hoje, as luzes se apagando,
aperto os olhos e ando,
agora, já devagar.
E percebo, inutilmente,
que o caminho é só voltar.
Nasci e a vida já indo:
um roteiro pela frente,
enorme estrada de luz.
Hoje, as luzes se apagando,
aperto os olhos e ando,
agora, já devagar.
E percebo, inutilmente,
que o caminho é só voltar.
domingo, 19 de setembro de 2010
Totalidade
Eliane F.C.Lima
Se me defino, eu me reduzo.
Aparo arestas, corto esquinas
e me arredondo.
Se me arredondo, eu me reduzo,
se é o círculo a perfeição.
Se sou perfeita, eu me reduzo,
tinha de um lado, tinha de outro,
o mau e o bom.
Se sou bondade, eu me reduzo.
Sou céu, sou chão,
ave altaneira, reptil cobra.
Se sou só cobra, eu me reduzo,
quero rastejo e quero voo.
Ser cobra e ave e peixe e lua,
se fico opaca e se eu luzo,
se sou a falta e sou a sobra,
faço o meu mundo para meu uso.
Se me defino, eu me reduzo.
Aparo arestas, corto esquinas
e me arredondo.
Se me arredondo, eu me reduzo,
se é o círculo a perfeição.
Se sou perfeita, eu me reduzo,
tinha de um lado, tinha de outro,
o mau e o bom.
Se sou bondade, eu me reduzo.
Sou céu, sou chão,
ave altaneira, reptil cobra.
Se sou só cobra, eu me reduzo,
quero rastejo e quero voo.
Ser cobra e ave e peixe e lua,
se fico opaca e se eu luzo,
se sou a falta e sou a sobra,
faço o meu mundo para meu uso.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Aniversário do blogue
Ontem foi aniversário deste blogue. Eu não podia deixar de comemorar, mesmo com atraso. Portanto reproduzo o poema que lá postei, há um ano atrás. Eliane F.C.Lima
Gesto dentro de mim uma lagarta prateada
que tormentosa não se quer dar ao mundo.
Da borboleta despreza o colorido profano.
É o sozinho seu campo de batalha,
a escuridão seus ataques contínuos,
o recuar o seu golpe fatal.
E se enrosca... e luta,
e se introverte... e lança.
(Agradeço aqui a foto lá de cima ao site "Imagens por favor." (link)
E aqui está a nova postagem, que havia sido colocada ontem, dia do aniversário, mas que transfiro para hoje, para que não fique esquecida lá atrás.
O mutante
Eliane F.C.Lima
Misturado a outros animais,
é anjo, sereia, centauro, esfinge,
cabeça humana sobre todos.
Insatisfeito, vira deus.
E expulsa a si mesmo do paraíso.
(Em 12-09-2010)
Quem gostou de meu poema está convidado a ler meu novo conto em Conto-gotas (link) e minha postagem sobre Helena Kolody em Literatura em vida 2 (link).
domingo, 5 de setembro de 2010
Das especificidades do amor
domingo, 29 de agosto de 2010
Macia seda
Eliane F.C.Lima
(Homenagem ao engenho musical de Michel F.M.)
Um anjo canta,
som masculino,
seu doce mantra.
Ainda menino,
claves de sol,
semicolcheias,
são suas teias.
Com passo leve
– a vida é breve –,
não toca harpa,
não toca sino,
só seu destino.
Dedilha cordas,
retira a farpa
que fere o ouvido
de nossa vida.
De tão menino,
de tão canoro,
me afaga o ombro,
me embala o sono,
divina lida.
(Homenagem ao engenho musical de Michel F.M.)
Um anjo canta,
som masculino,
seu doce mantra.
Ainda menino,
claves de sol,
semicolcheias,
são suas teias.
Com passo leve
– a vida é breve –,
não toca harpa,
não toca sino,
só seu destino.
Dedilha cordas,
retira a farpa
que fere o ouvido
de nossa vida.
De tão menino,
de tão canoro,
me afaga o ombro,
me embala o sono,
divina lida.
(Escrevi este poema, surpresa com o talento criativo e a voz jovial de Michel F.M., um de meus seguidores, em seu blogue ÁSPERA SEDA (convido-o a visitá-lo aqui). Sempre me deixa crente no futuro o encontro da juventude com a poesia.
domingo, 22 de agosto de 2010
Enlace
Eliane F.C.Lima
Asas abertas, plana alto o anjo,
Busca, agudos olhos, o seu deus.
Luz solitária, vento amigo e brando,
sobre as nuvens – pássaro sem os seus?
Enormes asas, boi, montanha, lago,
pequena sombra erra pelo chão.
Achará, hoje, um dia, assim voando,
a quem procura, um rumo torto e vago?
Asas intensas, agora, entre as estrelas,
até a lua, baixa à rua, à várzea nua,
perscruta, atento, a cada vão desvão,
se vê imagens, voa, ali, ao vê-las.
Abertas asas, fugiu ao paraíso?
Não estava lá aquilo a que buscava?
Um par sem mancha, aberto, voa alto,
a face calma, mesmo sem sorriso.
E, finalmente, asas em sobressalto,
uma pessoa, abaixo, segue dura.
Desfeito todo em ternura e gratidão,
enxerga nela o criador a criatura.
Asas abertas, plana alto o anjo,
Busca, agudos olhos, o seu deus.
Luz solitária, vento amigo e brando,
sobre as nuvens – pássaro sem os seus?
Enormes asas, boi, montanha, lago,
pequena sombra erra pelo chão.
Achará, hoje, um dia, assim voando,
a quem procura, um rumo torto e vago?
Asas intensas, agora, entre as estrelas,
até a lua, baixa à rua, à várzea nua,
perscruta, atento, a cada vão desvão,
se vê imagens, voa, ali, ao vê-las.
Abertas asas, fugiu ao paraíso?
Não estava lá aquilo a que buscava?
Um par sem mancha, aberto, voa alto,
a face calma, mesmo sem sorriso.
E, finalmente, asas em sobressalto,
uma pessoa, abaixo, segue dura.
Desfeito todo em ternura e gratidão,
enxerga nela o criador a criatura.
domingo, 15 de agosto de 2010
Hoy
Eliane F.C.Lima
No soy ojo,
yo soy boca.
Recibo cuando me doy.
No me quedo y miro el mundo,
miro el mundo por mis manos,
yo soy mundo en lo que soy.
Oigo el pasado, el futuro,
pero vivo, vivo hoy.
Miro el mundo por mis pies,
nos pasos en que yo voy.
Miro el mundo en tu mirada,
en tu mirada caliente,
donde veo, veo el pueblo,
donde llora nuestra gente.
Há postagens novas em meus blogues Literatura em vida 2 (aqui o caminho) e Conto-gotas (vá nessa direção).
No soy ojo,
yo soy boca.
Recibo cuando me doy.
No me quedo y miro el mundo,
miro el mundo por mis manos,
yo soy mundo en lo que soy.
Oigo el pasado, el futuro,
pero vivo, vivo hoy.
Miro el mundo por mis pies,
nos pasos en que yo voy.
Miro el mundo en tu mirada,
en tu mirada caliente,
donde veo, veo el pueblo,
donde llora nuestra gente.
Há postagens novas em meus blogues Literatura em vida 2 (aqui o caminho) e Conto-gotas (vá nessa direção).
domingo, 8 de agosto de 2010
Cor, cordis
Eliane F.C.Lima
Não guarde o coração na gaveta para deixar que ele bata mais tarde, quando você não tiver mais nada de importante para fazer;
não guarde o coração no bolso e o deixe esquecido lá, para só encontrá-lo, surpresa, quando vestir aquela velha calça incômoda;
não esqueça o coração em cima do armário que você só alcança, quando pega a pesada e insuportável escada de armar;
não perca o coração no meio dos livros que você deixou para ler não sei quando;
nenhum esforço vale o descompassado e sudorífero bater do coração vexado, surpreendido, flagrado, tartamudo, boquiaberto, trêmulo de amor.
Confira, também, meus blogues Conto-gotas (vá por aqui) e Literatura em vida 2 (o caminho é este).
Não guarde o coração na gaveta para deixar que ele bata mais tarde, quando você não tiver mais nada de importante para fazer;
não guarde o coração no bolso e o deixe esquecido lá, para só encontrá-lo, surpresa, quando vestir aquela velha calça incômoda;
não esqueça o coração em cima do armário que você só alcança, quando pega a pesada e insuportável escada de armar;
não perca o coração no meio dos livros que você deixou para ler não sei quando;
nenhum esforço vale o descompassado e sudorífero bater do coração vexado, surpreendido, flagrado, tartamudo, boquiaberto, trêmulo de amor.
Confira, também, meus blogues Conto-gotas (vá por aqui) e Literatura em vida 2 (o caminho é este).
segunda-feira, 2 de agosto de 2010
O absoluto
Eliane F.C.Lima
O silêncio de olhar,
o silêncio de ouvir.
O lento movimento,
de mansinho,
um vento sorrateiro,
leve brisa,
instaurada a paz de ninho.
A calma absoluta,
a luz pouca,
olhar sem sentir medo,
sem a roupa,
que cobre o corpo,
a alma:
a armadura.
Abrir – silêncio! – a estrutura
e espionar o fora,
mansamente.
O silêncio de olhar,
o silêncio de ouvir.
O lento movimento,
de mansinho,
um vento sorrateiro,
leve brisa,
instaurada a paz de ninho.
A calma absoluta,
a luz pouca,
olhar sem sentir medo,
sem a roupa,
que cobre o corpo,
a alma:
a armadura.
Abrir – silêncio! – a estrutura
e espionar o fora,
mansamente.
sábado, 24 de julho de 2010
Toca
Eliane F.C.Lima
Bicho escondido na toca,
um olho negro no escuro,
a ilha é seu próprio corpo,
sem porto e sem farol.
Um mundo, cores que passam,
vozes, riso, movimento.
Cá dentro – som de lamento? –
silêncio é negridão.
Um aberto e negro olho,
espreita o mundo lá fora.
A porta não é saída,
a porta não é entrada.
Bicho escondido na toca,
um olho negro não chora.
E nada há que se faça,
nenhuma via é estrada,
nenhuma cobiça do sol,
fútil e inútil porta,
cobiça é da vida morta,
vida e alma que lá vão.
Bicho escondido na toca,
um olho negro no escuro,
a ilha é seu próprio corpo,
sem porto e sem farol.
Um mundo, cores que passam,
vozes, riso, movimento.
Cá dentro – som de lamento? –
silêncio é negridão.
Um aberto e negro olho,
espreita o mundo lá fora.
A porta não é saída,
a porta não é entrada.
Bicho escondido na toca,
um olho negro não chora.
E nada há que se faça,
nenhuma via é estrada,
nenhuma cobiça do sol,
fútil e inútil porta,
cobiça é da vida morta,
vida e alma que lá vão.
domingo, 18 de julho de 2010
Encontro
Eliane F.C.Lima
Miro a mulher parada,
ela virada pra fora.
Será que vê a paisagem?
Esgazear de olhos negros,
ares de enxergar o nada.
O que será que espia,
fita, investiga, espreita?
Parece esperar alguém...
um eu que de fora vem?
Encostada na esquadria,
a porta, de par em par,
seu corpo é como miragem.
As mãos, vaguidão em cada;
os pés, um já vai voar;
o rosto voltado, embora
pareça ao errante afeita.
Com que será que ela sonha:
futuro, mar, querubim?
Por ordem de deuses gregos?
Será por pura peçonha?
Ela olha para mim.
Fascinada, olho a mulher:
está nela a minha face.
E, sem qualquer mais disfarce,
é a mim que ela quer.
Miro a mulher parada,
ela virada pra fora.
Será que vê a paisagem?
Esgazear de olhos negros,
ares de enxergar o nada.
O que será que espia,
fita, investiga, espreita?
Parece esperar alguém...
um eu que de fora vem?
Encostada na esquadria,
a porta, de par em par,
seu corpo é como miragem.
As mãos, vaguidão em cada;
os pés, um já vai voar;
o rosto voltado, embora
pareça ao errante afeita.
Com que será que ela sonha:
futuro, mar, querubim?
Por ordem de deuses gregos?
Será por pura peçonha?
Ela olha para mim.
Fascinada, olho a mulher:
está nela a minha face.
E, sem qualquer mais disfarce,
é a mim que ela quer.
sábado, 10 de julho de 2010
Profanação
Eliane F.C.Lima
No pântano, úmido e escuro,
nasce uma planta verde.
Não vê, em volta, o lodo,
fixa o claro do céu.
Encanto da lama cinza,
o verde viola a vasa.
A vida de novo vibra,
raio de sol brotado.
No pântano, úmido e escuro,
nasce uma planta verde.
Não vê, em volta, o lodo,
fixa o claro do céu.
Encanto da lama cinza,
o verde viola a vasa.
A vida de novo vibra,
raio de sol brotado.
domingo, 4 de julho de 2010
Vagante
Eliane F.C.Lima
Tenho uma alma penada,
que mora dentro de mim.
Anda arrastando correntes,
caminha por quartos ermos,
enormes salas vazias,
lençóis brancos sobre móveis,
escadas em caracol,
levando a lugar nenhum.
De lá se desce voando,
levitando feito espuma.
No sótão há coisas velhas,
porão?, só há coisas mortas,
ratos e teias de aranhas,
que velam pelo silêncio,
se escondem,
se há gemido:
o desespero da alma,
fechando e abrindo portas.
Tenho uma alma penada,
que mora dentro de mim.
Anda arrastando correntes,
caminha por quartos ermos,
enormes salas vazias,
lençóis brancos sobre móveis,
escadas em caracol,
levando a lugar nenhum.
De lá se desce voando,
levitando feito espuma.
No sótão há coisas velhas,
porão?, só há coisas mortas,
ratos e teias de aranhas,
que velam pelo silêncio,
se escondem,
se há gemido:
o desespero da alma,
fechando e abrindo portas.
domingo, 27 de junho de 2010
Sacrifício em nome do amor
Eliane F.C.Lima
Romântica,
iria até as alturas
e lhe daria um céu estrelado.
Como não posso,
prática,
vou até a cozinha
e lhe dou um ovo estrelado
Romântica,
iria até as alturas
e lhe daria um céu estrelado.
Como não posso,
prática,
vou até a cozinha
e lhe dou um ovo estrelado
domingo, 20 de junho de 2010
O eterno retorno
Eliane F.C.Lima
Voltar sempre mulher,
se são dadas outras vidas.
Impossível diferente,
reconstruindo o mundo,
evitando o despedaço,
segurando sempre os cacos,
o mundo sempre explodido.
Voltar, eterna mulher,
apagando o velho mundo,
desenhando outros contornos,
outros modos, outros estares,
viver ser só fraternar.
Mulher, ser sempre mulher,
querer somente o ficar,
querer somente o querer,
cobiçar somente a vida,
juntar e unir os pedaços,
fazer do pó o inteiro.
Voltar sempre mulher,
se são dadas outras vidas.
Impossível diferente,
reconstruindo o mundo,
evitando o despedaço,
segurando sempre os cacos,
o mundo sempre explodido.
Voltar, eterna mulher,
apagando o velho mundo,
desenhando outros contornos,
outros modos, outros estares,
viver ser só fraternar.
Mulher, ser sempre mulher,
querer somente o ficar,
querer somente o querer,
cobiçar somente a vida,
juntar e unir os pedaços,
fazer do pó o inteiro.
domingo, 13 de junho de 2010
Cartão-postal
Eliane F.C.LimaOlho aquele Pão-de-açúcar,
morro, pedra e enfado,
de bondinhos e turistas,
barcos, banhistas aos pés.
Às vezes, no meio de [nuvens,
esconde o rosto, cansado,
esquecer tanta euforia.
Saudade de tempo passado,
índios, nudez e silêncio,
trilhas de pés descalços,
rostos quietos na mata,
banhos em rios sem sal.
Olho o morro:
seu corpo finge o azul,
esconde seu verde mato,
esconder-se-ia todo,
não fosse assim gigante,
não fosse assim parado,
navio fixo no mar,
âncoras pra sempre fundas.
Fugindo na água à fora,
longe de grandes navios,
perder-se-ia nas brumas,
terras ainda não vistas,
praias jamais nadadas,
ninguém pra ver ou falar.
Mas está tão encalhado,
eternamente calado,
seu pranto salga o mar.
domingo, 6 de junho de 2010
Velha história
Eliane F.C.Lima
Havia orgulho em mim.
De mim.
Hoje sou só uma lembrança do passado.
Como as velhas avós.
Entrei para o álbum de fotografias,
daqueles que partiram
e não são lembrados,
nem com saudade.
São caras estranhas.
Os antigos, guardiães das memórias,
contam histórias sobre eles.
A que os novos não prestam atenção.
Embora ainda caminhe por aqui,
e viva por aqui,
meu rosto, já esfumaçando,
amarelece entre os defuntos retratos.
Havia orgulho em mim.
De mim.
Hoje sou só uma lembrança do passado.
Como as velhas avós.
Entrei para o álbum de fotografias,
daqueles que partiram
e não são lembrados,
nem com saudade.
São caras estranhas.
Os antigos, guardiães das memórias,
contam histórias sobre eles.
A que os novos não prestam atenção.
Embora ainda caminhe por aqui,
e viva por aqui,
meu rosto, já esfumaçando,
amarelece entre os defuntos retratos.
domingo, 30 de maio de 2010
Lavra-dor
Eliane F.C.Lima
Em mim, a única coisa que brilha
é o metal de minha marmita fria,
quando bate o raio de sol.
A única coisa que bebo
é o suor de meu rosto,
quando bate o raio de sol.
O único animal que vejo
são os chifres largados no chão,
quando bate o raio de sol.
A única árvore onde encosto
é um tridente seco,
quando bate o raio de sol.
A única coisa que falo
é “Vida, vida... “,
quando bate o raio de sol.
Mas matuto tudo,
mas espero tudo;
e todos os brilhos,
inclusive o da faca;
e todos os líquidos,
inclusive o sangue;
e todos os animais,
inclusive a cascavel;
e todas as madeiras,
inclusive a cruz;
e todas as palavras,
inclusive “Morte!”,
quando, à noite,
não bate mais o raio de sol.
Em mim, a única coisa que brilha
é o metal de minha marmita fria,
quando bate o raio de sol.
A única coisa que bebo
é o suor de meu rosto,
quando bate o raio de sol.
O único animal que vejo
são os chifres largados no chão,
quando bate o raio de sol.
A única árvore onde encosto
é um tridente seco,
quando bate o raio de sol.
A única coisa que falo
é “Vida, vida... “,
quando bate o raio de sol.
Mas matuto tudo,
mas espero tudo;
e todos os brilhos,
inclusive o da faca;
e todos os líquidos,
inclusive o sangue;
e todos os animais,
inclusive a cascavel;
e todas as madeiras,
inclusive a cruz;
e todas as palavras,
inclusive “Morte!”,
quando, à noite,
não bate mais o raio de sol.
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